Crianças da Pediatria de Leiria ouvem histórias de voluntários para adormecer

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Segundo Bilhota Xavier, diretor da Pediatria, as histórias contadas “desenvolvem o espírito de sonhar, de criar alguma criatividade e a favorecer o adormecimento das crianças que estão fora do seu ambiente de conforto”

Todos os dias, os utentes do serviço de internamento da Pediatria do hospital de Santo André, em Leiria, recebem a visita de voluntários da Associação Nuvem Vitória, que contam histórias para adormecer.

Desde o final do mês de junho, que crianças e adolescentes internados naquela unidade do Centro Hospitalar de Leiria são visitados por ‘nuvens’, que entram nos quartos às 20h30 em ponto, de camisola azul-bebé vestida e sacola ao ombro, onde transportam os livros escolhidos previamente, de acordo com a idade dos utentes.

“Este projeto tem a particularidade de contribuir para a boa higiene do sono, um dos problemas que se tem vindo a agravar. Cada vez mais as crianças se deitam mais tarde, os pais ficam a dormir com elas ou levam-nas para a sua cama, o que cria uma péssima higiene do sono“, alertou à agência Lusa o diretor da Pediatria, Bilhota Xavier.

Ana Carvalho, Joana Bernardes, Rosário Oliveira e Teresa Faria são quatro das cerca de 80 voluntárias que compõem o núcleo de Leiria da Associação “Nuvem Vitória”.

O voluntariado é algo muito positivo. É o nosso grãozinho para ajudar a tornar o mundo melhor. Contribuímos para proporcionar bons momentos num espaço diferente, como o ambiente de um hospital”, afirma Joana Bernardes, terapeuta de acupuntura.

Teresa Faria, empregada de escritório, perdeu um filho com 26 anos, vítima de cancro. Garante que é uma ‘nuvem’ porque o seu filho a “empurrou”. Depois de um período em que tinha dificuldade em estar com crianças, porque apenas via nelas o seu “sofrimento” e a “dor” dos pais, esta voluntária mudou de atitude quando um bebé lhe abriu os braços a pedir colo.

“Sei que foi uma mensagem do meu filho”, referiu, com os olhos brilhantes, garantindo que este voluntariado lhe enche o coração e a faz sentir ‘nas nuvens’.

Ana Carvalho, educadora de infância, acrescentou que vai para casa de “coração cheio” e, por vezes, “com lágrimas de felicidade nos olhos”. “Mesmo aqueles que não querem ouvir histórias, só ver o seu sorriso já é uma lufada de ar fresco”.

O serviço de Pediatria recebe utentes até aos 18 anos. Os mais velhos não estão tão recetivos a histórias de embalar, mas muitos aceitam ouvir anedotas ou curiosidades. “Sabes quantas variedades existem de arroz? Cerca de 100 mil”.

Marco Reis, 15 anos, ficou surpreendido com o que ouviu. “E logo eu que gosto tanto de arroz”, retorquiu às ‘nuvens’ que o visitaram no quarto.

As voluntárias escalonadas para o dia são informadas do número de crianças, idades e informações relevantes, como não terem pais ou terem sofrido algum trauma específico.

“Desta forma, sabem que há assuntos que não devem abordar e terão isso em atenção na escolha da história que irão contar”, explicou a educadora residente da Pediatria, Ana Paula Correia.

Segundo Bilhota Xavier, as histórias contadas “desenvolvem o espírito de sonhar, de criar alguma criatividade e a favorecer o adormecimento das crianças que estão fora do seu ambiente de conforto“.

O clínico lamentou ainda que haja pais que “nunca tenham lido uma história ao seu filho”.

“Além da vantagem de favorecer o adormecimento, contribuir para que sonhem com coisas agradáveis e afastem os medos para outros lados, esta iniciativa reforça a ligação pais/filhos. É um acordar para a necessidade de estreitar relações”.

Sem dados concretos sobre a mais-valia de iniciativas como esta que existe na Pediatria de Leiria, entre outras ligadas à música, magia, teatro ou prevenção de acidentes, Bilhota Xavier acredita que a imagem que as crianças levam do hospital é mais positiva.

“Há crianças que não querem ter alta e outras quando regressam para uma consulta de rotina pedem para visitar a enfermaria. Procuramos criar um ambiente acolhedor, dentro do possível”, reforçou o pediatra.

Tratando-se de crianças e de um local onde a saúde é débil, as regras a cumprir são muitas. Além de ser pedido o registo criminal, todos os voluntários realizaram uma formação intensa. “Sabem que não podem perguntar aos adolescentes ou aos pais qual a doença, não podem revelar com que criança estiveram, devem lavar as mãos antes e depois da visita e não podem tocar em nenhuma criança”, exemplificou Bilhota Xavier.

O projeto da Associação Nuvem Vitória iniciou-se em 2016, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e tem vindo a estender-se a vários hospitais do país.

Originalmente publicado em Observador.

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